quinta-feira, 9 de julho de 2009

COMO SOU

Comprazo-me de ser um homem normal, limpo, enxuto, de hábitos saudáveis.
Com efeito, não sou cego, nem surdo-mudo.
Não babo, não fungo, não tenho o bafo de onça dos pinguços, já que bebo com moderação, dando preferência aos vinhos, sobretudo os tintos e secos. Também não exalo o ranço sarrento da nicotina, pois não fumo. Não tenho chulé, não tenho cc ou catinga no sovaco, não tenho mau hálito. Não sou mofino, nem ladino.
Enfim, não fedo, sem embargo de que, como dizem, ninguém sente os próprios cheiros.
Posso até roncar, mas meu sono é leve e tranqüilo e me acordo logo, com o barulho do próprio ronco.
Não tenho hemorróidas, nem pé chato, nem tique nervoso.
Não sou lerdo, nem dorminhoco, nem sonâmbulo, nem desmemoriado, nem retardado, nem inocente, nem indiciado, nem culpado.
Não sou banguela ou dentuço, nem careca, nem cangalha, nem canhoto, nem corcunda, nem fanhoso, nem gago, nem daltônico, nem vesgo, nem zarolho.
Não sou gordo nem magro. Meu peso é normal, eis que tenho l,78 m de altura e há 30anos peso 78 quilos. Cintura 90. Apenas tenho uma barriguinha de veludo.
Como e bebo ao natural, sem esganação,isto é, não sou inapetente, nem edaz, nem guloso, nem voraz. Sou calmo e sei ouvir e calar de acordo com as circunstâncias. Minha voz tem o tom normal, sem aspereza. Quando falo, gesticulo o suficiente, sem afetação. Também não sou agnóstico, nem ateu, nem carola, nem fanático, nem descrente.
Não sou acanhado, nem assanhado, nem enxerido. Trago minhas unhas habitualmente aparadas, a barba feita e a roupa limpa. Já usei bigode, mas não uso mais.
Minha pele é clara e macia e meus cabelos, outrora castanhos, são lisos e soltos, não glostorados ou empapados.
Gosto de tomar banho, de ver as estrelas, dos perfumes discretos, das flores, das frutas, da chuva, da música, das mulheres, dos cães, da amizade e da sinceridade, da cor verde, das minhas coisas, sem ser demasiadamente apegado a elas.
Mas sou conservador. Há 50 anos moro em Lourdes, à Rua Felipe dos Santos, 42, e com a mesma mulher.
Creio que a minha família é a melhor do mundo.
Desfruto de boa memória e aprecio as pessoas inteligentes.
Não me considero inferior a ninguém. Tenho a mente aberta, mas não tenho o corpo fechado e sou alheio a superstições. Acho bom espirrar, às vezes estrepitosamente, mesmo sem uso do rapé. Mas não acredito que, ao fazê-lo, estou espantando o capeta.
Não sou tão jovem como fui, nem tão velho como espero vir a ser.
Enfim, gosto da vida e, quando partir desta para outra, sentirei saudade dela. Creio que este mundo é o melhor de todos os que conheço...

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