Daniel Antunes Junior
Lençóis do Rio Verde, hoje município de Espinosa, minha terra natal, no Norte de Minas, fronteira com a Bahia, foi distrito do antigo município e comarca de Tremedal, hoje Monte Azul.
Referido distrito e termo judiciário daquela Comarca, desfrutava de uma aristocracia rural liderada pelas famílias Antunes e Tolentino, cujos patriarcas contratavam professores de fora, para proporcionar aos filhos e filhas esmerada educação, e ainda mandavam estes, em viagens a cavalo, a estudar em Diamantina ou em Botucatu, em São Paulo.
O coronel Heitor Antunes, era descendente do rabi homônimo, que se dizia da linhagem dos Macabeus e que aportou na Bahia fugindo da Inquisição, vindo a ser mais tarde vítima dela; e Joaquim Tolentino, descende do alferes José Nicolau Tolentino, que chegou ao Brasil como integrante de uma força expedicionária a serviço de Napoleão, para frustrada invasão da Bahia (pouco antes da vinda de Dom João Vl), e por aqui ficou, como desertor.
Esses dois pró-homens eram os expoentes máximos de referidas famílias e desfrutavam do maior prestígio, inclusive junto ao governo do Estado. Foram eles os responsáveis pela criação do novo município.
No distrito as coisas corriam bem, com sua economia baseada na cultura e beneficiamento do algodão, levado em fardos, em lombo de burros, às distantes fábricas de tecidos.
O algodoeiro era muito resistente à irregularidade ou falta de chuvas, a produção incrementava os negócios e a prosperidade alimentava o progresso.
Recorda-se que, com o advento dos teares mecânicos, da revolução industrial da Inglaterra, essa fibra têxtil natural, passara de uns 7% para cerca de 80% na manufatura de todo tipo de pano no mundo inteiro, ensejando, com isso, grande procura do chamado ouro branco.
Para beneficiamento e prensagem do produto, havia no distrito inúmeras máquinas puxadas a bois, pois ainda não contavam com motores a explosão, ou eletricidade.
Além do renome do notável escritor Antonino da Silva Neves e de Dom Lúcio Antunes de Souza, 1ª bispo da Diocese de Botucatu-SP, ambos de Lençóis do Rio Verde, este Distrito se destacava, em todo o extremo Norte de Minas, graças à atuação e reputação do Pe. Guilhermino José Tolentino, filho da terra, e seu vigário por mais de 48 anos.
Dois fatos significativos marcaram aquela época de ouro de Lençóis do Rio Verde.
Primeiro, a sede da Comarca foi transferida para o distrito; segundo, o governo do Estado, com o advento do automóvel, mandou construir uma das nossas primeiras estradas de rodagem, com toda a técnica da época, ligando Lençóis a Morrinhos, hoje Matias Cardoso, às margens do São Francisco. É que, para se chegar à Capital do Estado, dando uma volta enorme, os lençoenses iam de carro, ou a cavalo, até Morrinhos, lá tomavam o vapor que os levava até Pirapora, e dali rumavam de trem de ferro para Belo Horizonte.
O coronel Donato Gonçalves Dias, que era o poderoso chefe político em Tremedal, sempre foi absolutamente contrario à emancipação de Lençóis do Rio Verde - o mais florescente distrito da Comarca - e não fazia segredo disso. E o Pe. Guilhermino, que seria elemento chave para a sonhada emancipação, mantinha-se neutro e reticente...
O motivo era simples. O padre, que mantinha relacionamento cordial com Donato, tinha uma mulher teúda e manteúda e era pai de dois filhos com ela: o conhecido Tone do Padre e o Mário - este, provavelmente, por adoção. Embora isso fosse um segredo de polichinelo, Guilhermino receava que Donato, com a sua autoridade, o denunciasse junto ao bispo da Diocese, trazendo-lhe problemas.
A verdade é que Clemência, a mulher do padre, era recebida por toda a sociedade local como uma dama de respeito, sem qualquer restrição.
Mas um dia, por fas ou nefas, o bispo da Diocese o chamou a Montes Claros, para uma conversa e esta teria sido nestes termos:
- Chamei-o aqui, padre, porque soubemos que o senhor vive maritalmente com uma mulher. É verdade?
Guilhermino, que adivinhara de saída o motivo da convocação, com humildade, cabeça baixa, mas resoluto, respondeu:
- Esta indagação do meu bispo e senhor me deixa profundamente contristado. Se eu disser que é mentira, estarei faltando com a verdade; se digo que é verdade estarei faltando com o respeito a Vossa Excelência Reverendíssima...
- Meu filho, conheço o seu trabalho pastoral e as fraquezas humanas. Vá em paz. Fique com Deus. Mas é preciso muito cuidado, muita discrição...
Sentindo-se libertado de seus receios, o Pe. Guilhermino apoiou a emancipação. Mas os burocratas do antigo Departamento de Estatística do Governo impôs uma condição: que o nome do novo município fosse mudado para Espinosa, em homenagem ao bandeirante Francisco Bruzza Espinosa, que comandou a primeira expedição exploratória deste imenso território, dede o descobrimento. Sem outra alternativa para a realização do grande sonho, a imposição foi aceita. E lá se foi, espinhosamente, uma bela denominação, tradicional, evocativa e até poética!...
Bruzza Espinosa e o Pe. Aspilcueta Navarro realmente perlustraram a região trezentos anos antes da fundação de Lençóis do Rio Verde, e a trezentos quilômetros de distância dele.
Não foi somente Lençóis do Rio Verde que sofreu a ação pretensiosa, arbitrária, insolente, descabida e desrespeitosa aos fundamentos históricos da toponímia autêntica em nosso Estado. Na mesma fornada, os burocratas novidadeiros torraram impunemente os nomes tradicionais de Brejo das Almas, Calambau, Rio Preto e outros. Infandum!
Assinar:
Postar comentários (Atom)
5 comentários:
Prezado Sr. Daniel Antunes Júnior
Boa tarde!
Procurando no google alguma informação sobre o alferes José Nicolau Tolentino de Espinosa, dei-me com o seu blog e com a notícia de que o senhor é descendente do alferes e que está elaborando o catálogo genealógico dos seus descendentes.
O meu sogro, já falecido, Benedito Nogueira, é filho de José Américo Nogueira, nascido em Espinosa aos 12 de Novembro de 1876, e neto de Antônio Nogueira Tolentino e de Bernardina Adelaide, todos de Espinosa.
Consta na família que o meu sogro era descendente do alferes José Nicolau Tolentino.
Tenho apenas uma vaga informação de que uma das filhas do alferes casou-se com um Manoel Nogueira, mas não consegui até hoje estabelecer documentalmente o parentesco de Antônio Nogueira Tolentino, que deve ter nascido por volta de 1840-1850, com o alferes.
O senhor teria, por acaso, em sua base de dados alguma referência aos Nogueira Tolentino de Espinosa e especialmente sobre Antônio Nogueira Tolentino, que seria neto ou bisneto do alferes?
Atenciosamente,
Manoel César Furtado
Email: mances@netsite.com.br
Guará/SP
23 de Julho de 2009
Bom dia Daniel,
É com uma satisfação incomensurável que venho agradecer-lhe por tudo que você representa na família!!
Tenho muito orgulho de pertencer aos "Antunes".
Obrigado e parabéns pelo seu blog que está repleto de histórias e curiosidades !!
Enfim, está fantástico!!
Sthênio Antunes - filho de Sa Lau de Dosinha.
Montes Claros - MG
Prezado Sr.º Daniel,
Sou nascido em Espinosa e busco informações sobre a história e também sobre meus parentes que me antecederam, estou tentando montar minha árvore genealógica para uma futura e talvez possível solicitação de dupla cidadania. Caso o senhor possua alguma informação de alguém que já tenha esta cidadania eu lhe ficarei muito grato. Meu sobrenome direto por parte de pai é Alves Martins, por parte de mãe é Fernandes Tolentino, também também tem Oliveira. Meu avô é nascido em Espinosa, onde hoje se encontra o leito da Barragem do Estreito, ele tinha por nome Benedito Alves Sobrinho (1913-1975), meu bisavô paterno se chamava João Alves Martins, também nascido na mesma região as datas não possuo. Meu avô materno se chama José Fernandes Tolentino - Apelido Zé Barrigudo (1934), meu bisavô materno se chamava Manuel Fernandes de Oliveira,este era primo do Capitão Genésio Tolentino (1930 - http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/fotografico_docs/photo.php?lid=32686). Gostaria muito de sua ajuda e compreensão com as informações que possuir. Grato Kleber Alves Martins
Olá Sr Daniel. Sua página veio em uma busca que fiz sobre LENCÓIS DO RIO VERDE. Meu avo, JOSE XAVIER DA SILVA, nasceu aí em 1896 e depois migrou para São Paulo. Sei que agora aí se chama ESPINOSA, em homenagem ao Bandeirantes Espinosa. Meu avô casou com uma filha da família CUNHA BUeno, que acredito ser da mesma região.
Tenho uma pesquisa genealógica sobre minha família de sobrenomes LEITÃO-BEIRIGO, na página https://groups.yahoo.com/neo/groups/LEITAOBERIGO/info
Excelente página o sr. tem sobre genealogia.
Ola Sr Daniel meu bisavo Etelvino e seu irmao Benedito com mais uma irma vieram desta cidade nao se sabe ao certo qual a causa verdadeira causa pois ouco historia contada pelo meu pai que vieram fugidos da fome da bahia tem sobrenome de siqueira fizeran paradas em Aracuai gostaria muito de conhecer esta historia e possiveis parente arvore genealogica.
Postar um comentário