domingo, 16 de agosto de 2009

A história trágica de Amélia

Daniel Antunes Júnior

Em apêndice de meu livro “Lençóis do Rio Verde - Crônica do Meu Sertão” escrevi a história de Amélia, uma jovem tão tímida, de espírito tão sossegado e calmo, que corava de seus próprios anseios.
Amélia Pereira Freire, ou Amélia Freire Alkimin, era casada com meu tio-avô Evaristo Antunes de Souza, cujo irmão, Dom Lúcio Antunes de Souza foi o primeiro bispo de Botucatu-SP.
Não omiti nenhum detalhe do seu drama e de sua tragédia, esta registrada nos autos do processo-crime, que se encontram nos arquivos da Comarca do antigo Tremedal, hoje Monte Azul.
Abatida rudemente por seu marido, ela sofreu até a morte, sem que contasse com qualquer auxílio, nada podendo fazer senão apelar a um poder mais alto para que a amparasse naquele momento de dor e desespero.
No local de seu holocausto, logo depois de sua ocorrência, foram erguidas duas cruzes, uma maior, outra menor, simbolizando a mãe e o filho que esta trazia em suas entranhas. Há poucos anos, um conterrâneo que mora em São Paulo, devoto de Amélia, em reconhecimento por graça alcançada por sua intercessão, adquiriu o terreno, cena da tragédia, e ali construiu uma capela e um preventório destinado à população carrente.
Pairava no ar uma dúvida quanto ao procedimento da jovem e bela Amélia.
Entretanto, qualquer que tenha sido no passado a sua conduta, ninguém pode negar, em sã consciência, que a morte trágica lhe colocou sobre a fronte uma auréola de luz.
Ninguém pode duvidar que continuamente e cada vez mais, anos a fora, legiões de almas aflitas e sofredoras buscam e alcançam, na invocação de Amélia, um lenitivo para suas dores e um consolo para suas mágoas.
Na verdade, seria estranho que isto pudesse acontecer, sem que algo transcendente tivesse marcado aquele episódio sangrento, ocorrido há cento e cinco anos, na noite fria e estrelada de sexta-feira, 15 de julho de 1904.
Na memória gloriosa de seu sacrifício - a própria imagem do sofrimento que redime e santifica - vê-se que a sensibilidade popular, indiferente aos antecedentes da grande tragédia, instituiu e consagrou a devoção de Ameia, na inspirada crença de que, naquele martírio inenarrável, sua alma foi resgatada pura como o lírio dos pântanos, e resplandecente como sol que brilha no céu límpido, após a noite tenebrosa das tempestades e dos vendavais.
Sua alma goze da glória!

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