domingo, 16 de agosto de 2009

O Prêmio Nobel

Daniel Antunes Júnior

A Fundação Nobel - Nobelstiffelsen, é instituição sueca, regulamentada em 1900, de conformidade com as disposições testamentárias de Alfred Bernard Nobel, químico e industrial nascido em Estocolmo em 1833 e falecido em San Remo em 1896.
Ele foi o inventor da dinamite, (e sua denominação, derivada do grego dinamis - força, potência) obtendo a absorção da nitroglicerina, muito instável, por uma matéria porosa inerte. Criou posteriormente a dinamite-goma - altamente explosiva e largamente usada na indústria, na construção civil e na guerra - composta de nitroglicerina e areia.
Nobel amealhou considerável fortuna e a destinou à premiação anual, que traz o seu nome.
O ato constitutivo da Fundação é o seu testamento, datado de Paris a 27.11.1895 - um manuscrito do próprio punho do instituidor, com apenas 43 linhas.
Alfred Nobel, um amante da paz, viria a falecer no ano seguinte, deixando a totalidade de sua fortuna (mais de 30 milhões de coroas) a um fundo, cuja renda deveria ser distribuída anualmente aos que, no decurso do ano anterior, houvessem “proporcionado maior benefício à humanidade.”

DISTRIBUIÇÃO DA RENDA
A renda seria dividida em cinco partes iguais, a serem distribuídas da seguinte forma: uma parte a cada um dos que houvessem feito a mais importante descoberta ou invenção, ou tivessem dado a melhor contribuição para o desenvolvimento da física, da química e da fisiologia ou medicina; uma parte a quem produzisse a melhor obra no campo da literatura, e uma parte a quem tivesse desenvolvido o máximo esforço no sentido de promover a fraternidade das nações, a abolição ou redução dos exércitos permanentes e a formação e propagação de um congresso de paz.
Não há dúvida de que o Prêmio Nobel é a mais notável láurea concedida a indivíduos ou instituições que se destacaram nas respectivas áreas da cultura universal.
A propósito lembremos que láurea ou laurel é expressão derivada do latim laurus (loureiro), cujas folhas coroavam os generais vitoriosos - os heróis da Roma antiga.
Por suas características singulares, ao distinguir cidadãos do mundo por seu talento e seu trabalho visando ao progresso e ao bem estar da sociedade humana, independentemente de sua nacionalidade, os prêmios Nobel, a partir de 1901, conferem aos agraciados sólida e definitiva reputação.
Indiscutível é o nível artístico, técnico e científico dessa que é a maior promoção da inteligência, da operosidade e da capacidade criativa do ser humano, aferido pela Real Academia Sueca de Ciências, pelo Instituto Médico-Cirúrgico Karolinska e ainda pela Comissão Nobel do parlamento norueguês.
Significativo e louvável é o caráter universal, equitativo e livre, da premiação. Basta dizer, por exemplo, que o prêmio de Literatura, desde a sua instituição, já foi outorgado a escritores de nada menos de quarenta países espalhados pelos cinco continentes. O campeão foi a França, com 12 prêmios, seguida de perto pelos Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido.

NA TERRA DOS VIKINGS
Para divertir o leitor, e sem pretender desviar o rumo ou o tom comedido desta exposição, abro espaço para narrar um fato pitoresco e bem humorado. Num tour pela Europa, tive a idéia de trazer um souvenir de cada Pais.
Assim, ao chegar à Escandinávia, já havia adquirido, em Roma, a miniatura da loba amamentado Remo e Rômulo; em Paris, a da Torre Eiffel; em Madrid, a de um touro negro e chifrudo; em Lisboa, a do Galo de Barcelos; em Copenhagen, a da Pequena Sereia; em Londres a do soldadinho que guarda a rainha, no Castelo de Windsor, além de outras.
Chegara a vez de adquirir uma lembrança da terra dos Vikings, grandes navegadores. Então, perguntei à nossa graciosa cicerone:
- Por que será que os vikings usavam chifres?
Ela pensou um pouco e depois respondeu, de maneira surpreendente:
- Sei não... Mas acho que é porque eles viajavam muito...

O LOCAL DAS PREMIAÇÕES
Tive o privilégio de conhecer, pessoalmente, em Stokholmo, o local e as magníficas instalações em que são realizadas as imponentes solenidades da entrega dos prêmios Nobel, todos os anos, com as interrupções verificadas durante as duas guerras mundiais. As instalações são primorosas, dignas da magnificência do grande evento.
A premiação tem valor monetário significativo, mas condicionado às rendas do fundo. Entretanto, seu valor simbólico é incalculável.

À outorga do Prêmio Nobel não faz sombra a consagração conferida aos virtuoses das artes plásticas e da escultura, que deslumbram multidões nas melhores galerias e museus dos grandes centros; nem tão pouco a popularidade e renome alcançados por compositores, artistas e intérpretes que deleitaram e deleitam tantos aficionados da música, do balé e dos concertos sinfônicos no Alla Scala de Milão, na Opera de Paris, ou no Couvent Garden de Londres - para só falar dos mais importantes teatros de ópera e de espetáculos do mundo.
Em tais ambientes de refinamento se elevaram à glória Rossini, Donizetti, Verdi, Toscanini, Nijinski, Pavlova, Galina Ulanova, Isadora Duncan, Caruso, Maria Callas e tantos outros que atuaram magistralmente, mas diante de um público privilegiado.
E ainda, não lhe chega aos pés o cobiçado Oscar da Academia Cinematográfica de Holywood, que galardoa, com pompa e circunstância e sob grande publicidade, os expoentes máximos da sétima arte - a mais notável e acessível das atrações populares dos tempos modernos.

Como se vê, o prêmio Nobel, está voltado para o progresso da humanidade e, sem grande alarde, foi inspirado e mantido pela sensibilidade de um nobre cidadão, inicialmente para cinco agraciados anuais. Atualmente são seis as suas categorias e, de certa forma, tem alcance maior do que qualquer outro prêmio de incentivo à cultura. São elas: de Economia, Física, Literatura, Medicina, Paz e Química.

O PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA
O prêmio Nobel de Economia, também chamado de Prêmio Severiges, foi instituído em 1968 pela Real Academia de Ciências Sueca, às expensas do Banco Central da Suécia - o Severiges Riksbank . Foi uma homenagem à memória de Alfred Nobel, que além de ter sido considerado um cidadão superidealista, foi empresário bem sucedido do ponto de vista econômico, revelando-se grande mecenas. Esse prêmio começou a ser distribuído no ano seguinte, 1969, e até 2006 completou o total de 58 premiações das quais os Estados Unidos ficaram com nada menos de 38.
Inegável, o acerto dos temas escolhidos.Segundo as melhores definições,
Física é a ciência que estuda as leis que regem os fenômenos naturais susceptíveis de ser examinados pela observação e experimentação, procurando enquadrá-los em esquemas lógicos;
Química é a senhora e escrava do homem. Do berço ao túmulo é o homem completamente governado por suas ações e reações. É estudo científico da constituição da matéria, suas propriedades e transformações substanciais. Seguindo suas leis, o homem, em proveito próprio, manipula os elementos, em combinações que variam ao infinito.
Medicina é arte e ciência de curar ou atenuar as doenças; Fisiologia é parte da Biologia que estuda as funções dos organismos dos seres vivos, animais ou vegetais.
Paz é a tranqüilidade pública, concórdia, sossego, cessação de hostilidade, silencio, descanso; a própria bem-aventurança;
Economia é a boa ordem em qualquer administração particular ou pública; a harmonia das partes com o todo. Em ouros termos, é o poder que governa o mundo; e
Literatura fala de tudo isso e o céu também.
Em suma, a competição dos Prêmios Nobel é uma espécie de olimpíada cultural, de que podem participar nacionais de todos os continentes. E o dinamismo da premiação é assegurado pela circunstância de contemplar as produções, ou sua ressonância, do ano precedente.
Sem dúvida alguma, a outorga do Prêmio Nobel reflete a qualidade de um país, suas aptidões e seu desenvolvimento global - cultural, econômico, técnico e científico, pondo em destaque o gênio inventivo e a capacidade criativa de seus filhos.

O RANKING DOS PREMIADOS
Eis o ranking dos países que, segundo página da Internet, mais ganharam o prêmio Nobel, desde a sua instituição até 2005:
Países Econ. Física Liter. Med. Paz Quím. Total
USA 37 75 10 82 19 52 275
R.Unido 8 22 10 28 12 25 105
Alemanha 1 22 8 15 4 27 77
Suécia 2 4 6 8 5 4 29

A primeira premiação, em 1901, foi a seguinte: de Física a W.C. Röntgen da Alemanha; de Literatura a Sully Prudhomme, da França; de Medicina e Fisiologia a Von Bering, da Alemanha; de Paz a H.Dunant, da Suíça; e de Química a Van t´Hoff, dos Países Baixos.

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA
Atemo-nos ao mais charmoso dos prêmios Nobel, destinado a pessoas que “no domínio da literatura compuseram, no ano anterior ao da premiação, a mais notável obra de inspiração idealista”, independentemente de sua nacionalidade, raça, língua e convicções religiosas.
Observa a Editora Delta, responsável pela publicação da coletânea dos prêmios Nobel em português (com capa de Picasso), que a concessão anual do maior galardão da republica universal das letras, é acolhida com interesse cada vez mais intenso. Os motivos da decisão, a personalidade e a obra do laureado, as discussões precedentes à outorga do laurel, a maneira por que é atribuído, excitam a natural curiosidade dos leitores cultos do mundo inteiro.
A extensa relação de laureados do Prêmio Nobel de Literatura pode ser considerada como representativa da evolução verificada neste setor, em cada país.

OS AGRACIADOS MAIS CONHECIDOS
Ao longo dos anos, dentre os autores agraciados, os mais conhecidos e de diversas nacionalidades, foram: Bernard Show, Fulkner, Gide, Hemingway, Henri Bergson, Hermann Hesse, Kipling, Maeterlinck, Mauriac, O´Neil, Pasternack, Pirandelo, Rabindranath Tagore, Romain Rolland, Sartre, Selma Langerlof, Steinbeck, Sienkiewicz, T.S Eliot, e Thomas Mann.
Dos latino-americanos tivemos:Gabriela Mistral e Pablo Neruda, do Chile, Miguel Angel Astúrias, da Guatemala, Gabriel Garcia Marquez, da Colômbia.
A literatura pode ser equiparada ao retrato falado de um povo, pois reflete o rolar de sua vida, sua cultura, sua história, seu folclore, suas tradições, seus usos e costumes através dos tempos.
E de todas as suas modalidades, em todo o mundo, destaca-se o conto. Um conto bem estruturado pode ser o resumo de um romance.
Sua popularidade deriva do fato de ser uma narrativa curta, sucinta, para ser lida de uma assentada. Guimarães Rosa batizou-a de sagarana, termo composto de saga (lenda ou narrativa de origem escandinava) e rana (pospositivo de origem tupi que significa semelhante, parecido a).
Alguns dos agraciados do Nobel escreveram contos e não apenas romances ou novelas. Dentre eles, destacamos o polonês Henryk Sienkiewicz, autor do romance histórico, o mundialmente famoso Quo Vadis?. Todavia, tomou-se por base o seu delicioso conto “O Faroleiro” e outros, cujo volume foi publicado como uma de suas obras mais importantes.

AUSÊNCIA DO BRASIL
A difusão de uma literatura além de suas fronteiras é obstada, obviamente, por dificuldades lingüísticas. Muitas vezes, ao serem passadas para outro idioma, a obra perde parte do seu sabor. Entretanto, este não é um problema incontornável.
Mas, lamentavelmente, o Brasil ainda não se fez presente em nenhuma das categorias do Prêmio Nobel, nem mesmo na de Literatura, apesar de nossa cultura geral e de termos tantos escritores primorosos, como Machado de Assis, Carlos Drumond de Andrade, Jorge Amado, Guimarães Rosa e muitos outros, muitos dos quais tiveram edições em línguas estrangeiras.
Guimarães Rosa, por exemplo, foi traduzido em diversas línguas e sua obra é mundialmente conhecida e apreciada...
Em toda a América do Sul, além da Argentina, com um prêmio da Paz, outro de Medicina, até o momento apenas o Chile, com Gabriela Mistral e Pablo Neruda; a Guatemala com Miguel Angel Asturias, e a Colômbia com Gabriel Garcia Marquez, fazem parte desse Clube seleto da cultura universal, com prêmios de Literatura.
O critério de seleção e eleição dos postulantes é exigente e não pode ficar à mercê de aventureiros, inclusive autores que se valem de bem montado marketing editorial, com feroz e rica publicidade, para auto-promover-se.
Na Literatura, como em qualquer outra atividade criativa, é preciso separar o joio do trigo. O joio, coisa ruim, daninha, é sempre invasor e prejudica o que há de melhor.
Assim, as indicações devem recair em obras de real mérito, e ser bem fundamentadas, levando o aval e a chancela de instituições realmente idôneas.
Contamos com um manancial de bons autores, que se equiparam aos melhores do mundo inteiro, e não se compreende porque ainda não temos o prêmio Nobel, pelo menos o de Literatura.
A verdade é que, para todas as categorias, não nos faltaram bons candidatos, tais como: Cesar Lattes e Santos Dumont, para Física; Adelino Leal (o professor que ensinava no laboratório), de renome internacional, mas infelizmente esquecido no Brasil, para Química; Carlos Chagas, Oswaldo Cruz, Hilton Rocha, Ivo Pitangui e Zerbini, para Fisiologia e Medicina; Marechal Rondon e Rui Barbosa, para a Paz; Roberto Campos e Eugênio Gudin, para Economia, e Guimarães Rosa e tantos outros para Literatura.
Não devemos esperar que um prêmio dessa magnitude nos caia do céu, de mão beijada...
Ainda é tempo de nossas Academias de Letras, Universidades e outras Instituições arregaçarem as mangas, com a colaboração do Itamarati - o Serviço Diplomático -, disputando um lugar ao Sol para nossa Pátria, nessa grande maratona da inteligência e da cultura universais.
Os bons ventos não contemplam aos que dormem...

Nenhum comentário: