terça-feira, 18 de agosto de 2009

A ONISCIÊNCIA, SONHOS E FANTASIAS
Daniel Antunes Júnior
Somos dotados da inteligência que falta aos irracionais e temos a natural curiosidade a respeito de nossa origem, finalidade, aptidões e destino.
O sonho da imortalidade no ser humano lhe é inerente, ainda que em termos, isto é, que se faça através de suas obras. Assim aconteceu, por exemplo, com os faraós que edificaram pirâmides, preocupados em deixar após si, de alguma forma, o rastro de sua passagem por este singular planeta, de que tanto gostamos, e que certamente é o único habitado em nosso sistema solar.
Essa singularidade, aliás, dá a medida da importância da Terra e dos humanos, dotados estes de extraordinária capacidade de realização. Tanto que estamos especulando, com o emprego do poderoso Humble e de sofisticadas sondas espaciais, o que ocorre nos outros planetas e seus satélites, visando a desvendar os mistérios da criação e saber como tudo começou.
Nas academias de letras e em outros sodalícios culturais, tem sido habitual tratar generosamente a seus consócios como imortais, porque suas obras, por ventura, vão além de sua existência terrena. Lembro-me bem de que meu saudoso amigo Felipe Machado Cury, para me ser agradável, dizia, bem humorado, que eu era imortal por merecimento e ele o era porque não tinha onde cair morto!...
O homem, animal racional, bípede e mamífero ocupa o primeiro lugar na escala zoológica. Biològicamente assemelha-se aos demais mamíferos e deles se distingue por sua faculdade espiritual própria, através da qual chega à concepção das idéias universais.
Na teoria de Jung, anima é o componente feminino da personalidade de todos os seres humanos.
Curiosamente, pretende-se que só o homem tem alma (do latim anima). Os bichos não a têm, apesar de serem animais - termo derivado de anima.
Mas, vamos ao que nos interessa neste comentário.
Note-se que, volta e meia, até bons autores empregam os substantivos mente (intelecto) e alma (ou espírito, parte imaterial do ser humano), como sinônimos. Mas há uma diferença sutil entre os dois termos. Se, como dizia Lucrécio, são outros elos de união os dotes do corpo e do espírito, implicitamente admitiu ele tal diferença na dualidade. Mas não nos propomos discutir o sexo dos anjos.
Entretanto, sabemos que psiquê é palavra grega que significa alma. Lembremos, apenas para sinalizar a tênue diferença, que na mitologia greco-romana Cupido, ou Eros, apaixonou-se de Psiquê, princesa de encantadora beleza, com a qual quis se casar, resultando daí a idéia da teoria cartesiana da relação entre a alma e o corpo - a interação.
Os psiquiatras tratam das doenças mentais contando, para isso, com antipsicóticos, antidepressivos e tranqüilizantes, mais ou menos eficazes, medicamentos esses cujos ingredientes são extraídos de elementos da natureza, e que agem diretamente sobre a constituição orgânica e fisiológica do sujeito. Mas isso ainda é pouco. Os profissionais dessa área da medicina, dispõem de outros recursos terapêuticos para atender os seus clientes com distúrbios e conflitos mentais (neuroses e psicoses), seja pesquisando o seu comportamento ou vasculhando o seu inconsciente. O divã constitui símbolo dessa terapia. Mas é curioso que ninguém fale de doença almal.
Podia ater-me a outros temas da vida, por exemplo, sobre economia e finanças, já que labutei quantum satis na administração do crédito real e fiduciário dos bancos, atividade que é alheia às investigações metafísicas, cartesianas, ou simplesmente psicossomáticas, mas exige uma boa dose de habilidade psicológica.
Foi assim que, sem pretender invadir as águas dos psiquiatras, psicólogos e psicanalistas preferi, como curioso free-lance, esta ousada incursão à metafísica, que é teoria geral abstrata, e suas afinidades, fascinado pela indagação das origens, evolução, capacidade e performance do ser humano.
Sabemos perfeitamente que a geometria nos ensinou grande número de verdades, e a metafísica bem poucas. Mas vamos lá, sem qualquer pretensão novidadeira. Somos conscientes de nossas limitações. O próprio Sócrates, monumento do raciocínio (Ah, o grande Sócrates!) se apresentava como homem que nada sabia!...
Quanto à alma, disse Voltaire: “Seria maravilhoso ver a própria alma. Conhece-te a ti mesmo (esta inscrição estava gravada na fachada do templo de Delfos) é excelente preceito, mas só a Deus é dado pô-la em prática. Quem mais pode conhecer a própria essência?”
Contudo, não há dúvida que o homem se aproxima muito do criador de todas as coisas. Diz-se até que Deus o fez à sua imagem e semelhança. Pelo menos é o que consta do Genesis.
Vejamos, desde logo, esta referência lapidar:
Que obra de arte é o homem; quão nobre em sua razão; que infinito em suas faculdades; quão eloqüente e admirável em forma e movimento; como se assemelha a um anjo na atividade; e no entendimento como se parece a um Deus!
Assim falava Shakespeare, no Hamleto.
A Obra da Criação e a Onisciência
Para Tomaz de Aquino é importante considerar alguns elementos fundamentais, tais como o movimento, a causa eficiente, a noção do possível e do necessário, o grau de perfeição que se nota nas coisas e a ordem do universo.
De minha parte, entendo que Deus criou o mundo constituído de matéria e energia, e inventou a vida, tirando patente dela. Foi obra definitiva. Desde então tudo se realiza segundo uma ordem geral previamente estabelecida. Nada há de novo debaixo do sol.
O corpo humano, feito do barro da terra, de acordo com a Bíblia, representa, segundo conclusão científica, uma síntese dos principais elementos da natureza. Sem dúvida, é um prodígio. O homem, portanto, fisicamente está ligado a tudo que existe em torno dele.
Sabe como muitas coisas são feitas, mas não sabe fazê-las a seu modo, ou de outra maneira, embora tenha a seu alcance todos os ingredientes. Por exemplo, pode fabricar um grão de feijão de conteúdo e forma perfeitos, mas que não germina.
Resta ao homem o privilégio de ver as coisas acontecer e de realizar aquilo que, não sendo impossível, é possível. Como ser inteligente, constituído e organizado de maneira prodigiosa e providencial, além da faculdade do conhecimento das coisas através dos próprios sentidos, o homem potencialmente teria a visão transcendental, instantânea, de tudo que acontece no mundo, em qualquer parte, isto é, a onisciência. Como prová-lo? O raciocínio nos leva a considerações surpreendentes, ainda que não conclusivas. É bom lembrar que a matemática, como instrumento principal das demais ciências, tem por objeto, de um modo geral, a medida e as propriedades das grandezas físicas ou abstratas, e dela se valeu o judeu Baruch Espinosa, para suas notáveis conclusões filosóficas. Mas ainda resta o problema desconfortável das dízimas periódicas, que simbolizam o balizamento da capacidade humana... Afinal, o homem é limitado naquilo que é, ou que pode entender e realizar.
Ainda assim, tendo recebido do Criador o misterioso sopro de vida (energia espiritual), o Homo vivens com seus órgãos e glândulas em perfeita sintonia, fez-se indivíduo pulsante e pensante. Sequencialmente evoluiu para Homo sapiens, Homo faber, Homo ludens, Homo socialis e Homo culturalis.
Conta o homem com um cérebro e sistema nervoso que sob comando da mente lhe imprimem autonomia de pensamento e ação, em perfeita interação cartesiana de corpo e alma E é dotado, segundo certos pensadores, da capacidade de juntar aos conhecimentos por si adquiridos, a memória retroativa, isto é, o patrimônio cultural herdado dos antepassados por via genética. Além disso, acreditam alguns que não é demais concluir que esse ser singular, privilegiado, constituído de corpo e alma (corpus et anima), tenha recebido, potencialmente, o dom da onisciência. Todavia, essa faculdade originária veio a passar pelo estrangulamento de uma espécie de válvula redutora, em beneficio do próprio equilíbrio emocional.
Mas muita indagação ainda paira no ar, à espera de uma resposta definitiva.
William Blake, gravador e escritor espiritualista inglês do século dezoito, passou a vida em pobreza e acessos de loucura que lhe proporcionaram grandiosas visões, aproveitando-as para ilustrar os seus livros e os de Job, Virgílio, Dante e Chaucer. Teria ele, como antípoda da mente, transposto as portas da percepção de que nos fala Aldous Huxley? Se de fato não teve contatos imediatos com a Jerusalém Celestial, a cidade santa descrita no Apocalipse, não deixou de ser um poeta visionário. Escreveu coisas fantásticas sobre os mistérios da vida e versos de beleza extraordinária, como estes:
Ver o universo no grão de areia
E o paraíso em uma flor;
Segurar o infinito na palma de sua mão
E notar a Eternidade em uma hora.
Na “A Evolução Criadora”, sua obra prima, Henri Bergson fala do impulso vital, criador, que se aplica á matéria, e declara que os mais fecundos de todos os sistemas filosóficos têm como base a intuição.
No “Ensaio sobre os dados imediatos da consciência” e em “Matéria e Memória” ele trata da inserção do espírito no mundo material, afirmando que a integralidade do passado se conserva na memória e que o cérebro apenas filtra as lembranças úteis à ação presente. Para ele, não é a inteligência que chega a compreender a vida, mas a intuição.
Aldous Huxley em suas especulações de ordem filosófica e religiosa, falando de sua experiência com alucinógenos, cita o pesquisador de Cambridge, Dr.C.D.Broad, segundo o qual “será bom considerarmos, muito mais seriamente do que até então temos feito, o tipo de teoria estabelecida por Bergson, com relação à memória e ao senso de percepção.”
Essa teoria acrescenta que a função do cérebro e do sistema nervoso é, principalmente, eliminativa e não produtiva. E segue que cada um de nós seria capaz de lembrar-se, a qualquer momento, de tudo que já ocorreu conosco, bem como de se aperceber de tudo que está acontecendo em qualquer parte do universo. Entretanto, a função do cérebro e do sistema nervoso é proteger-nos, impedindo que sejamos esmagados e confundidos por essa massa de conhecimentos, na sua maneira inúteis e sem importância, eliminando muita coisa que, de ouro modo, deveríamos perceber ou recordar constantemente, e deixando passar apenas aquelas poucas sensações selecionadas que, provavelmente, terão utilidade na prática.
O Sonho e ilusões
Outro tema fascinante, que através dos séculos tem mobilizado tantas cabeças pensantes é o sonho - a sequência de imagens e de fenômenos psíquicos que ocorrem durante o sono.
O ato ou efeito de sonhar, propriamente dito, tem caráter involuntário e as imagens oníricas, geralmente ligadas à vida do indivíduo, constituem subsídio de grande interesse para estudos psicanalíticos.
Na mais remota antiguidade e mesmo muito tempo depois, o sonho era considerado como aviso divino, ou sobrenatural, destinado a prevenir o ser humano quanto a determinados acontecimentos.
Nos episódios bíblicos as interpretações de sonhos eram correntes e sempre foram aceitas sem discussão.
Entretanto, nos tempos modernos,vários estudos foram feitos e Freud chegou a elaborar a teoria dos sonhos, mas a sua interpretação é falha.
Como explica Huxley, a maioria dos sonhos diz respeito aos desejos e impulsos instintivos do paciente, bem como aos conflitos que surgem quando esses desejos e impulsos são frustrados por uma desaprovação do consciente, ou por um temor à opinião alheia.
A história de tais impulsos e conflitos é contada em termos de símbolos dramáticos e, na maioria dos sonhos, tais símbolos são monocromáticos. Qual a razão para isso? Suponho, diz ele, que seja porque os símbolos, para terem valor, não precisam ser coloridos. As letras com que escrevemos acerca das rosas não necessitam ser vermelhas, e podemos descrever o arco-íris por meio de sinais negros sobre o papel branco. Os compêndios são ilustrados com gravuras hachuriadas e fotogravuras a meios-tons, o que não impede possam esses diagramas e imagens monocromáticas representar as informações que se desejam.
Por extensão, sonhar também é fantasia, utopia, devaneio, ilusão. Eu, por exemplo, vivo sonhando em acertar na mega sena, pois, segundo velho adágio, um dia a casa cai...
É interessante observar que os sonhos de um homem doente tomam sempre um relevo extraordinário a ponto da própria realidade confundir-se com tais sonhos. O quadro que representam e todos os seus meandros sobre o organismo preso de excitação nervosa são de tal maneira verossímeis, cheios de minúcias tão imprevistas, tão engenhosas e tão adequadas, que o próprio individuo que os sonha seria incapaz de inventá-los acordado, fosse ele um artista da estatura de um Puchkin, ou Turgueniev.
Não é raciocinar com rigorosa lógica - diz um personagem de Dostoievsky, de maneira tão sugestiva - supor que tudo que aparece ao doente é devido ao delírio. Admite-se que as aparições não se mostram senão aos doentes. Mas isso só prova uma coisa: que é preciso estar doente para vê-las, e não que não existem na realidade.
As aparições são, de certa forma, fragmentos de outros mundos, seus embriões. Um homem com saúde não tem naturalmente razão alguma para vê-las, pois um homem são é sobretudo um homem terrestre, isto é material. Deve, portanto, ter uma vida terreal, em termos de harmonia e ordem. Mal, contudo, vem a adoecer e a ordem normal, terrestre, do seu organismo se perturba, a possibilidade de outro mundo começa logo a manifestar-se, enquanto, à medida que se agrava o mal, as relações com esse outro mundo se tornam mais estreitas até que a morte o faça penetrar nele inteiramente.
O homem, individualmente, como qualquer máquina ou entidade, tem duração limitada e está sujeito aos percalços de sua caminhada. Mas se eterniza na sua posteridade, através das gerações. Muitos gostariam de ser lembrados, através de sua obra.
Muito se tem falado e escrito de visões de quem esteve no limiar da morte, ou do outro lado da muralha e, por assim dizer, reviveu. Há quem atribui tais visões aos efeitos das drogas e ou às perturbações do cérebro enfermo.
O fato é que, exceto para os suicidas, isto é, para aqueles que perderam o controle emocional, a morte é indesejada e temida.
A razão disso é que a vida é bela, a tal ponto que muitos têm saudades antecipadas dela, como eu. Para outros o temor provem do desconhecido. Ninguém sabe o que acontece no mundo do além, pois ninguém de lá voltou para contar, a não ser Lázaro, ressuscitado ao terceiro dia da morte. Mas Lázaro nada contou de sua extraordinária experiência...

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